Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007
Lutar pela vida!

 

 

Hoje vou falar de um grande escritor dos nossos dias.
Aqui está um excerto da entrevista que a Visão fez ao escritor Lobo Antunes, quando este se encontrava no hospital, devido a ter-lhe sido diagnosticado um cancro.
Achei pertinente a descrição dele.
 
“Visão – Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Lobo A. – Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente, é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. Não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?
 
V – A quem é que perguntava?
Lobo A. ­– Ao médico e a uma ou duas pessoas que faziam o favor de se interessar por mim. Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta foi: “Outra puta” Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: “Tens que aprender a viver com isto.” Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.
 
V – Tem que ter pulso firme?
Lobo A. – Tenho que lutar contra aquilo. O cancro habita-me, está dentro de mim. E queria portar-me com a mesma dignidade com que acho que me portei na guerra. Não sei se ele se importa com a minha atitude ou não, mas em princípio, é um pesadelo que estará terminado. De qualquer maneira, sei que, mais tarde ou mais cedo, a puta viverá. Só espero ter tempo para acabar o meu trabalho.
 
V – Na guerra, já tinha visto a morte de perto.
Lobo A. – Na guerra, era mais fácil porque era uma qualquer coisa de exterior, podia sempre agarrar numa arma. Em África tínhamos inimigos (digamos assim) e estávamos armados com morteiros, espingardas e metralhadoras.
Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte. Portanto, o tratamento é como fazer um aborto desse monstro que nos quer destruir. Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.
Este pequeno excerto é dedicado a todas as pessoas que lutam contra este mal.
Para elas um grande beijinho e para eles um abraço

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publicado por FELINO às 01:08
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